O modo de produção capitalista, desde que se estabeleceu no velho mundo, passou por várias etapas até se configurar na forma neoliberal que assumiu atualmente. Seguindo esse percurso histórico não se pode afirmar categoricamente sobre a derrocada inevitável do capitalismo por causalidade histórica. È claro que se pode pensar que em conseqüência da falência e o depauperamento de grande parte da população somando-se a um real crescimento vegetativo negativo – que tende a se alastrar além do mundo europeu – somando-se à crise econômica e ambiental que assola o Planeta, o sistema capitalista entraria em colapso. Todavia, sabe-se, também pela História, que este sistema tem a incrível capacidade de adaptação, frente às novas situações, para a superação de formas anteriores por outra que se adéque ao que realmente seja pretendido, como se fosse um vírus sem, portanto, proporcionar melhores condições de vida para os povos mantendo-os no limiar da miséria e até da própria morte a fim de que seja garantida a reserva de mão de obra necessária para a manutenção dos míseros salários sempre sujeitos à lei da oferta e da procura. Como escreve Rosa de Luxemburgo:
“A vitória do socialismo não cairá do céu como destino. Ela só pode ser conquistada com longa série de poderosas provas de força entre as antigas e as novas potências, provas de força nas quais o proletariado internacional, sob a condução da democracia social, aprende e tenta tomar seus destinos nas próprias mãos, assenhoreando do timão da vida social e transformando-se de objeto sem vontade da própria História em maestro dessa História, dotado de clara visão de seus próprios objetivos”.
Não se pode, contudo, aceitar, como muitos pensadores, que o marxismo tenha sido extinto para sempre por ser um sistema que “naufragou” com o fim da URSS em 1991. O marxismo soviético, sim, com sua visão distorcida de comunismo que em vez de promover o proletariado na condução do governo, o fez tão escravo como dantes no kzarismo que antecedeu a Revolução Russa de 1917. Mas, sobrevive o marxianismo, mais vanguardista e inovador, como um germe do comunismo que permanece no ventre da sociedade. O Marxianismo, portanto, não preconiza a revolução armada como a única forma de tomada do “poder”, mas, sobretudo, propõe uma revolução de idéias capaz de desmitificar as ideologias que impreguinam a forma de pensar da classe trabalhadora. Somente assim seria possível a superação do atual estado de injustiça social.
Há, todavia, um fator de entrave nas classes trabalhadoras que impede a realização de qualquer projeto que vislumbre mudanças efetivas na superestrutura da sociedade; são as micro-relações de poder. Equivocadamente se considera o poder como uma prerrogativa do Estado e que apenas este o exerce num movimento descendente indo até as classes menos privilegiadas da sociedade. Todavia, o poder não existe em si; o que existem são relações de poder que são relações de força, portanto, toda relação de força exprime uma relação de poder. O poder é algo que se exerce, que se efetua, que funciona como uma maquinaria, mas que não possui uma localização específica, logo, está disseminado por todo o corpo social; está presente em diferentes pontos da sociedade, sendo exercido em níveis variados, existindo ou não integrados ao Estado. O poder, então, se exerce, também num movimento ascendente que vai até o centro, o Estado, complementando-o.
Tome-se como exemplo os estabelecimentos de aprendizagem que, aliás, deveriam ser modelo para toda a sociedade no que se refere às relações profissionais. Há no interior deles uma disputa, cada vez mais visível, em busca de poder, pois este representa cargos fora de salas-de-aula, bem como possibilidades de ascensão na carreira. Essas relações, portanto, geram um poder ligado à política partidária – pois dela precisam para se materializar – que desestrutura as bases político-pedagógicas dessas instituições tornando-as incapazes para a produção de mudanças na máquina social, porque esses poderes que emanam do interior dos estabelecimentos educacionais retornam a estes de uma forma distorcida, logo, incoerente para os fins colimados pela educação.
Uma nova visão do marxismo, aqui denominada de marxianismo ou neo marxismo, aponta para um poder também partidário, desde que oriundo do seio da classe dos Educadores, a fim de que possibilite uma representatividade significativa, fundada nos preceitos educacionais. Os educadores, portanto, careceriam de uma maior unidade e consenso voltados para o coletivo em detrimento do individualismo que é uma das causas do insucesso do progresso social. Esse poder retornaria, então, para as escolas com um novo significado o qual seria capaz de gerar progresso que partisse efetivamente do des-envolvimento da classe. Assim sendo, até as greves atuais – relativamente ineficientes e que servem para a manutenção da existência de sindicatos – seriam substituídas, com o tempo, por relações de poder que promovessem transformações reais para a educação e, conseqüentemente para a sociedade.
Como diz Roger Garaudy (1913)“... nossa sociedade está a ponto de se desintegrar”. Por isso,é necessário uma transformação de suas bases, a qual, porém, não é possível com os métodos tradicionais. Para ser resolvida, uma crise de tal amplitude precisa de algo mais que revolução: exige transformação radical... Existem tarefas inéditas que nos impõem que não partamos mais das ideologias que nos dividem, mas dos problemas que temos em comum”.
As revoluções convulsionadas não são, portanto, mais eficazes como proposta para transformações, até porque, se fossem, o Brasil já estaria em novos rumos tendo em vista a grave situação de criminalidade existente no país que mais vítimas faz que outros movimentos armados em todo o mundo. No entanto, nada se faz diante disso, e a classe política, assim como a elite, fecha os olhos para esta situação como se o fato fosse algo natural no mecanismo social. Não são capazes de entender, como pensava Durkheim, que todo este quadro sinistro que a sociedade atravessa é um sintoma claro de “anomalia” (doença social) que precisaria ser sanado no “corpo” social. Em contrapartida e paradoxalmente, a classe política se degenera, na sua guerra particular pelo poder, cometendo atos explicitamente amorais e imorais de corrupção permanecendo, freqüentemente, impunes. As Revoluções, portanto, teriam que ocorrer em nível de reformulação de idéias.
Essencialmente, a reorientação radical de nossa sociedade exige de todos e, sobretudo, um esforço de imaginação criadora para conceber um tipo de sociedade e um modo de vida totalmente diverso dos que existem atualmente. Estamos diante de uma encruzilhada: Sofrer um destino ou construir uma História. Conseqüentemente, não é preciso criar um partido, mas, acima de tudo, um espírito, conscientes de que não temos possibilidade de escolha entre a ordem e a mudança, mas entre uma revolução convulsionada e uma revolução construtiva.
Sérgio Tezini Molina
Professor de Filosofia