domingo, 19 de setembro de 2010

A Ditadura da Imprensa Atual

Breve reflexão sobre matéria da Revista Veja de 1º de Setembro

Ouvimos, cotidianamente, desolados, afirmações que o Marxismo morreu definitivamente após a queda da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) em 1989 e também devido à crise socialista que vivem os cubanos. Pasmados sentimo-nos por ouvirmos estas hipóteses de pessoas que exercitam suas atividades profissionais na educação e de outras que convivem ativamente nos meios religiosos, bem como de outros tantos alienados.

Queremos aqui dizer, antes que sejamos entendidos equivocadamente, que não defendemos, tampouco preconizamos a metodologia da convulsão social, para que a sociedade possa sofrer mudanças no atual quadro de profunda desigualdade social reinante em todo o Planeta, conforme defendiam Marx e Engels. Todavia, defendemos que a sociedade tenha que passar, inexoravelmente, por uma revolução de idéias, de acordo com o pensamento do Filósofo italiano Antonio Gramsci (1831 – 1937), sobre o qual abordaremos mais adiante. O Ideário marxista, no entanto, não morreu, como querem fazer crer tantos maus dialéticos, mas exige um redirecionamento nos “meios” para que se atinjam os “fins”, neste mundo excessivamente globalizado e dirigido pela doutrina neoliberal.

Mas, a questão central é: como realizar uma revolução em nível de idéias e enfim, no pensamento coletivo se são tantos os obstáculos e tamanha a impregnação da ideologia dominante em todas as classes sociais e nas categorias profissionais? Como mudar o pensamento dos cristãos – ativos e passivos que entendem o termo “comunismo” como sinônimo de banditismo e outros adjetivos pejorativos – que se contradizem aos próprios preceitos de Cristo que se funda nos princípios da fraternidade e igualdade entre as pessoas?

Pensamos, pois, que a alternativa para que se possa adequar a sociedade às necessidades do momento é a construção de um contra-ideologia para que o pensamento da massa populacional se adéque ás emergências contidas na sociedade, mais especificamente, nas questões ambientais. Entenda-se aqui que os seres humanos não devem ser excluídos da análise, pois são, também, diretamente afetados pelo desequilíbrio do ecossistema gerado pelo enriquecimento de poucos, assim como pelo desequilíbrio da distribuição de rendas.

Quando nos referimos à igualdade social não pretendemos defender a ascensão das classes privilegiadas para que atinjam um nível de consumo considerável – já que o consumismo exacerbado é que precisa ser contido –, mas de haver uma melhor distribuição de renda e, por conseguinte, de melhor qualidade de vida para todos, sem que se consuma desnecessariamente além do essencial, porque aqueles que defendem a ascensão de forma generalizada das classes desfavorecidas não estão refletindo sobre a própria sustentabilidade do Sistema Terrestre e, logicamente, da sobrevivência da raça Humana.

Na edição da revista veja de 1º de Setembro do corrente ano (página 66) foi publicada uma matéria intitulada “A busca da Hegemonia” na qual o autor, Otávio Cabral, inicia com uma argumentação inconsistente e retórica, para poder, enfim, criticar a estratégia gramsciana na produção de uma contra ideologia e os investimentos do Estado para a abertura da TV dos Trabalhadores no ABC paulista (Santo Amaro, São Bernardo e São Caetano na Grande São Paulo) e de tantas outras rádios comunitárias no interior do País.

É contraditória a forma em que as críticas são tecidas ao novo posicionamento do Estado com investimentos em meios midiáticos que representam a voz da classe trabalhadora, pois o autor, que provavelmente não é jornalista, não fez um resgate histórico, sequer, de como se deram as concessões dos para o funcionamento dos meios de comunicação existentes na atualidade, principalmente a da TV globo. Tampouco, foi capaz de entender – e se o fez não demonstrou – que, historicamente, os veículos de comunicação, com raras exceções, sempre estiveram ao lado da classe dominante e, sistematicamente, construindo a ideologia prevalente em nosso meio social.

O autor da matéria certamente sabe, e teme, que os povos da América Latina estão se posicionando e apoiando governantes que, embora tenham que fazer adesões para terem governabilidade e alguns tenham características nacionalistas, falem a voz do oprimido. A própria Filosofia surge na América Latina através de pensadores que privilegiam esse “outro” ,excluído e marginalizado, e constroem uma ética específica originada do materialismo dialético e que não tem mais o “mesmo” como objeto de estudo, como ocorria na filosofia clássica.
No artigo ele descreve resumidamente a estratégia gramsciana que se divide em três frentes as quais transcreveremos a seguir com algumas intervenções na sequência:

“A primeira frente da estratégia consiste em criticar a imprensa livre em toda oportunidade, havendo ou não motivo para isso, de modo que, aos poucos, vá se disseminando a descrença em tudo o que é publicado sem a chancela oficial do governo ou do partido.
A segunda frente é focada em fazer e apoiar leis que tornem cada vez mais inviável o exercício da imprensa livre. São leis que tentam submeter os jornalistas a organizações de controle dominadas por agentes partidários e governamentais – e as de origem econômica que visam minar gradativamente as fontes de financiamento da imprensa pela iniciativa privada na forma de anúncios.
O terceiro mandamento gramsciano determina que na busca da hegemonia cultural, o comunista deve criar e apoiar jornais, revistas e redes de televisão controladas pelo partido para que eles concorram com a imprensa livre na busca da atenção dos leitores e telespectadores. Dessa maneira, ensina Gramsci, o militante comunista pode fazer o seu proselitismo fingindo que está defendendo os interesses gerais da população ou lutando para elevar o nível do jornalismo praticado no país...”

O trecho da primeira estratégia, transcrito acima, não traduz a realidade no Brasil entre a imprensa e o Estado brasileiro, mas, contrariamente, é a imprensa livre que critica implacavelmente o governo, uma vez que detém a chancela da elite representada pelos grandes canais de televisão os quais obtiveram suas concessões por 15 anos, conforme a lei vigente que não tem nada de democrática por ter sido criada na ditadura militar.

É inaceitável, portanto que enquanto governos democraticamente eleitos tenham mandato de quatro anos, as emissoras e retransmissoras de televisão fazem uso da sua concessão como um cheque em branco a ser gasto durante longos quinze anos, sem qualquer controle da sociedade sobre os conteúdos veiculados. É preciso, pois estabelecer critérios objetivos que garantam a finalidade social dos meios, a fim de que não sejam deturpados em favor de interesses particulares ou de uma minoria, e que se permita a sociedade o poder de cancelar a outorga em casos de irregularidades.

Existem emissoras e retransmissoras que representam, não somente, a antítese da informação, mas também da educação e da cultura, elementos fundamentais para a afirmação de uma sociedade sã e para a construção de um país soberano. Os exemplos de manipulação e deformação da realidade em benefício de interesses comerciais e políticos são muitos e se multiplicam, afinal são os seus donos os que definem quem é ou não notícia, o que é ou não informação a ser repassada para a opinião pública.

O que torna o papel de manipulação da mídia televisada mais crítica e também grave é o fato do visível monopólio de canais de retransmissão por políticos profissionais e isso é fácil de ser verificado no estado de Mato Grosso. Esses canais, de propriedade direta ou indireta de políticos apresentam os fatos com extrema parcialidade veiculando apenas o que convém para a construção da imagem dos respectivos proprietários, partidários ou coligados, omitindo da população outras versões dos fatos os quais poderiam proporcionar uma situação dialética fazendo o povo muito mais politizado e colaborando para a construção de uma sociedade mais preparada e, consequentemente, cidadã.

A segunda frente da estratégia representa a única forma de intervenção possível e adequada num meio “jornalístico” secularmente alicerçado pela democracia liberal que produziu, conforme as demandas da elite que representa, as suas verdades. Todavia, essa produção ideológica que se deu através da mídia, não foi espontânea e casual, mas ardilosa e minuciosamente pensada objetivando o conformismo diante das conseqüências maléficas provocadas pelo modo de produção capitalista. Logo, pode-se deduzir que a imprensa denominada livre é, contraditoriamente, intransitiva e ditatorial apesar da sua roupagem de inocência.

É, no mínimo, curioso uma pessoa como o autor do artigo de opinião não ter sido capaz de deslocar-se para que pudesse ver a sociedade na visão do “outro”; uma atitude relativamente simples e imprescindível para alguém que produz matérias para um veículo de comunicação. Como não podemos crer na incapacidade do autor, concluímos que, definitivamente, a revista Veja está preocupada com um reposicionamento do Estado, com relação à informação ideológica, que ela própria, a revista, pratica desde o início da sua circulação em pleno militarismo.

A crítica inerente à segunda frente da estratégia gramsciana, tecida por Otávio Cabral, de que o governo está caminhando no sentido de atingir uma nova hegemonia cultural adequada aos interesses gerais, não apenas é procedente, como também é necessária, pois como diz Merleau Ponty, “A verdadeira Filosofia é reaprender a ver o mundo”. É, portanto, oportuna a quebra desse velho paradigma de que todos, miseráveis, oprimidos, conduzidos e institucionalizados, execrados de direitos legais, trabalhadores, ignorantes, excluídos da educação de qualidade e das universidades, que são a grande maioria da nação, possam ter as suas próprias verdades em detrimento das antigas elaboradas metodicamente por uma minoria da população.

Por que o Sr. Otávio Cabral quer impedir que nossa população veja as verdades de fato? Talvez seja porque ele próprio, como tantos outros, passou a acreditar num ideário que ele sequer construiu, logo, esse é o mais ignorante que se possa imaginar, tal como são, por exemplo, muitos dos políticos atuais e de muitos da elite que são freqüentadores de igrejas, mas subjugam e exploram os seus eleitores e seus funcionários

"Os meios de comunicação têm donos. A informação tem proprietários. Existem latifúndios, monopólios, impérios midiáticos. A propriedade ilimitada da informação de uns pressupõe a ilimitada desinformação de todos. Somente há comunicação entre iguais". Luiz Brito Garcia, professor venezuelano