domingo, 12 de setembro de 2010

MÃE INGRATA?

Aventureiros de todos os cantos vieram
Como se a Terra fosse quadrada como antes
Movidos pelas fotos e propagandas que viram
De lavouras de café, milho, feijão e arroz verdejantes

Marcelândia cidade amada por todos,
no entanto derramando amor para poucos.
Até desprezo pelos peões do “Espera-tapa”
Que eram transformados em escravos brancos.

A mentira foi a pedra fundamental
Para o nascimento da que seria fenomenal
Pouco a pouco foi chegando o pessoal
Que recebia os seus lotes em outro local

Mães e filhos que choravam de fome e desgosto.
Tão distantes dos seus parentes queridos.
Voltarem para o Sul não podiam,
porque nem dinheiro mais tinham.

Matas eram derrubadas
O ronco do motosserra ecoava
A floresta toda agonizava
E as chamas consumiam o que sobrava

Esperanças num futuro alimentava a todos
Que sonhavam da terra bruta tirar a comida
Na confusa caminhada imposta pelos outros
Pra no ano seguinte continuarem a investida

Disseram que eras uma terra boa que dava
bons alimentos como milho, arroz e feijão.
Quando chegaram aqui os migrantes,
viram que era a mais pura ilusão.

Ingrata foi a terra que pouca produção deu
Aos poucos, a vocação agrícola lentamente morreu
Surgiu o madeireiro e novo vigor reapareceu
O agricultor, pequeno, quebrou, desapareceu

Ressurgiu como operário nas serrarias
Como operário favelado nas cidades lindeiras
Em alcoólatras muitos se transformaram
Destruindo seus futuros e suas próprias famílias

As matas ainda derrubadas
O ronco dos 51 também ajudavam
A floresta e pastagens agonizavam
Pois as chamas invadiam o que encontravam

Mãe que acolhera os teus filhos em teu seio
Sem distinção de raça, cor, credo
Mesmo fundada na covarde mentira
Abraçava a outros que o ouro não acharam

Prostituída por políticos infames
As matas agora pouco derrubadas
O ronco do motosserra se acaba
Os tratores fazem a terra enleirada

Mãe prostituída que hoje aborta seus filhos
Ao desengano pelo mundo desvalidos
Pois deles não mais necessita e despreza
Como partes doentes do seu organismo

Cidade querida que dificilmente mudará,
Pois em seu ventre abunda a miséria
de um ambiente que jamais se regenerará
e a bem poucos benefícios trará.

Terra fundada na cultura da ilegalidade
Onde paira e se cultua a vil leviandade
Dificilmente das cinzas renascerá
E esperanças num outro futuro renasce

ECOS E LAMENTOS DO PASSADO

ECOS E LAMENTOS DO PASSADO

Dos Bravos Pioneiros destemidos
ouço apenas os sussurros dos primórdios;
das primeiras festas alegres e divertidas
a embalar ilusões, sonhos e esperanças

Onde estão agora esses heróis aventureiros?
Muitos provavelmente mergulhados em devaneios
pela cachaça engolida em algum bar de esquina
para não pensarem no futuro e na triste sina.

Tempos alegres de lamparinas e lampiões a gás
que espalhavam pálidos clarõess nas ruas
aonde as crianças sorriam e inocentes brincavam
as brincadeiras, desde outrora, sempre puras.

Ecos felizes ressoam levemente do passado,
dos primeiros tempos que aqui chegaram,
de homens, mulheres, jovens e crianças valentes
que por uma colonizadora foram simplesmente
[logrados]

Onde estão agora esses jovens aventureiros?
que para cá vieram até sem terem querido
abandonando seus romances do passado
casados com parceiros que não do seu agrado

Tempos já não tão alvissareiros chegaram
Lavouras e lucros esperados não vieram
Estalidos secos e descompassados dos estacionários
Gerando alegria para poucos felizardos

Onde estão agora aquelas crianças do passado?
Que para cá vieram sem terem escolhido
Algumas, prostituídas sem um futuro traçado
outros caídos nas sujas sarjetas do asfalto

Onde estão agora estes heróis aventureiros do passado
Alguns aqui sobreviveram, pois prosperaram
Outros resistiram, porém jamais são mencionados
Um outro bocado já foi, aqui, sepultado.

Onde estão agora os nativos do passado
Que aqui viveram e muito perambularam
Tiveram a triste sina que não escolheram
Porque aos não nativos muito atrapalhavam.

Os lendários Mariçauá vencidos pelo tempo
Ao nosso formoso rio seu nome emprestaram
Embora tenha sido bastante modificado
Pelos que pela História pouco se interessaram.

Durante o tempo esta querida Terra
Tem sido um anfiteatro de políticos pouco honestos
Que para o povo só pensam nas campanhas
Sempre deixando um triste lamento funesto.

Bendito seja este sagrado chão de mil paixões.
Temperado com sofrimento e suor de abnegados
Maldito também, mil vezes és
Por ser um grande cemitério de sonhos e ilusões.

POLÍTICA E PATRIOTISMO NA HISTÓRIA

Mais uma vez a Pátria foi homenageada, neste ano com o formato de ato cívico, através do qual foi possível a constatação da inequívoca subversão do sentido de patriotismo uma vez que o alvo da solenidade, que deveria ser a Pátria, mais uma vez, foi deslocado às personalidades políticas ou a outras que a elas estão subordinadas. Não obstante, a pequena multidão participou passiva aceitando o evento como foi posto, pois talvez não pudesse compreender sobre os fatos do contexto da Independência política do Brasil e que a conduziram, assim como sobre o conceito de “Poder” que perpassa o meio social em relações ascendentes e descendentes.

Para um melhor entendimento sobre o conceito de patriotismo é bom que se saiba que o sentimento nativista nos brasileiros aconteceu muito recentemente na História. Alguns movimentos que ocorreram no período colonial não tinham a pretensão libertária, mas apenas libertar e beneficiar uma determinada região e uma classe social, respectivamente, como foi o caso clássico da Conjuração Mineira a qual não foi motivada pela brasilidade, pois o anseio dos inconfidentes era mais de ordem econômica e com fortes características de individualismo. Uma das exceções foi a Conjuração Baiana, quase uma década depois do movimento mineiro, articulada por brancos e negros pobres inspirados pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa.

Também a Independência do Brasil não foi motivada por patriotismo dos que a articularam, cuja liderança integrava a maçonaria, mas exclusivamente por interesses econômicos objetivando benefícios ao empresariado inglês e à elite brasileira. A questão central não era a liberdade do povo brasileiro, mas a liberdade de comércio e à exploração econômica do Brasil pelos Ingleses. O povo, portanto, sequer percebeu o que estava acontecendo nas esferas política e econômica e sem que se esperasse, o Brasil já não mais pertencia a Portugal e passa a seguir novos rumos trilhando para uma forte dependência econômica aos ingleses, que se inicia pelo empréstimo de dois milhões de Libras esterlinas do tesouro inglês para o pagamento, a título de indenização, destinado à Coroa portuguesa.

Até o II Império as principais cidades brasileiras eram as que estavam situadas no litoral, ou bem próximas a ele, como se as elites preferissem continuar dirigindo os seus olhares para além mar para, a qualquer momento, poderem retornar para os seus países de origem na Europa. Raras foram as exceções, dentre elas Cuiabá e Vila Rica que abrigavam os seus governantes e funcionários intermitentemente, dos quais uma minoria se radicalizou nessas regiões dando origem às famílias tradicionais que habitam essas paragens ainda hoje.

O sentimento de brasilidade somente aflora nos brasileiros por ocasião da Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, no entanto, isso ocorre nas classes menos privilegiadas, incluindo-se a população negra em decorrência dos escravos serem enviados para as frentes de batalha – com promessas de euforria, caso retornassem vivos – para substituírem filhos de famílias abastadas. É, portanto, paradoxal que muitos desses negros somente conseguiram a sua liberdade quase meio século após a independência do Brasil, isso para os que puderam evitar não terem morrido em combate.

Nos primeiros anos da República eclodem dois conflitos messiânicos: Canudos no sertão da Bahia (1893 e 1897), liderado por Antônio Conselheiro; Contestado, na divisa do Paraná com Santa Catarina, (1912 e 1916). Ambos os movimentos somente se tornaram conflitos armados quando as elites se sentiram ameaçadas. No primeiro caso, a preocupação era o mau exemplo que o Arraial de Belo Monte dava à população brasileira, uma vez que praticavam o igualitarismo, além do mais, punham em risco o poder da Igreja de Roma e o dos coronéis. No segundo caso, a causa foi o receio da perda das terras e do potencial madeireiro concedidos pelo governo brasileiro à empresa Souther Brazil Lamber and Colonization, para a exploração de madeira, e posterior colonização, em uma área estimada em trezentos mil hectares, aproximadamente.

Toda a brasilidade, nascida durante e no pós conflito da Tríplice Aliança, ficou comprometida após os conflitos messiânicos, pois a população brasileira, nos dois casos, presencia a completa dizimação de duas comunidades miseráveis que – sequer tinham conhecimento da diferença entre república e império – por tropas do exercito que ao invés de protegê-las, dizimou-as da forma mais antipatriota e covarde possível.

Posteriormente, o já tão frágil patriotismo é novamente abalado durante o Estado Novo, na ditadura varguista (1937 – 1945) na qual é desenvolvido um sistemático mecanismo de propaganda que transforma o sentimento cívico de exaltação à Nação para a exaltação ao governo e, consequentemente, ao regime de governo. É nesse momento histórico que ganha força no Brasil o formato de solenidades, cívicas ou não, nas quais as homenagens aos símbolos nacionais são realizadas com uma multidão entoando o Hino, mas dirigindo o olhar aos políticos que permanecem no alto de um palanque, em destaque, pois o pendão nacional, frequentemente era hasteado entre o palanque e a multidão, quando não, no próprio palanque.

Via de regra, toda ditadura visa a subversão das significações conceituais e, de forma semelhante, a manobra varguista é novamente ressuscitada a partir de 1964, após o golpe militar. Contudo, mesmo após 1985, com o final do ciclo militarista, a forma distorcida de patriotismo vem resistindo e permanece até o presente momento devido à forte alienação a que foi submetida grande parte da população durante os 21 anos de ditadura. Certamente, muitas pessoas, principalmente as que não prosseguiram nos seus estudos, terão como definição de “pátria” o sistema político que vigente no país, como parte integrante do Estado que somando-se a um território, perfazem o conceito. Outras, no entanto, que pertençam às elites, entenderão por “pátria” o espaço no qual possam acumular capital livremente, sem empecilhos de espécie alguma, sob o amparo do ideário do liberalismo clássico e do neoliberalismo e tendo, por conseguinte, justificadas todas as diferenças sociais no ideário positivista; mais, protegidas pelas forças militares; o Estado.

O contexto da política profissional não inspira otimismo para o povo brasileiro que se sente desrespeitado pelos que deveriam cuidar dos interesses da população em geral, mas não o fazem, pois legislam e administram em busca de benefícios pessoais, salvo exceções. No entanto, tem-se consciência de que em setembro a Pátria deve ser homenageada, porém a Pátria de uma forma plena e não na visão fragmentada e ideológica que sempre se quis infundir à população. O Hino Nacional, portanto, deveria ser entoado e respeitado por todos como um aspecto que foi incorporado à cultura nacional desde os primórdios da República e tido como um símbolo da Pátria, mas não idolatrado como se fosse a própria.

Diante do exposto, Não se pode deixar de indagar! Por que a promulgação de uma lei para tornar obrigatória a entoação do Hino, se os nossos dirigentes ainda não compreenderam, tampouco assimilaram o conceito Pátria? Como se pode aceitar a obrigatoriedade para homenagear a Pátria com um hino – que enfatiza a independência e o povo dela sequer participou e, talvez, ainda não participe – se os nossos dirigentes não aprenderam a respeitar o povo que é o ente fundamental para a composição do conceito “Pátria”?

O patriotismo, como descrito anteriormente é um sentimento que vem sendo construído lenta e historicamente pelo povo brasileiro e se apresenta de forma diretamente proporcional aos direitos de cidadania, esta também revitalizada – mesmo que teoricamente – no restabelecimento da democracia no país após 1985; melhor, o mais adequado seria o estabelecimento da democracia, uma vez que, anteriormente a 1985, foram raros os momentos de democracia. Pensava-se, há 24 anos, no final da ditadura, que o fato de se ter reconquistado o direito de eleger nossos políticos seria garantia de liberdade, de participação, de segurança, de desenvolvimento, de empregos e de justiça social; mas, as coisas não caminharam tão bem assim e problemas centrais da sociedade continuam sem solução e, quando há melhorias, são nitidamente pálidas e significam apenas migalhas, que mais parecem esmolas, que sobram para a grande massa populacional.

Como é possível que seja exigido da população a entoação do Hino sem que haja a preocupação e respeito ao povo? Por que exigir que se cumpra uma lei se não há grande esforço em se ter condutas éticas pelos muitos que ocupam cargos políticos e públicos? Quais seriam os porquês de os rigores das leis serem exigidos de tantos e os benefícios e a ineficiência destas beneficiarem secularmente os mesmos?

Para que sejam possíveis as respostas a estes e a outros tantos questionamentos é fundamental que se procure refletir sobre estas indagações: Teriam os políticos profissionais o entendimento do que seja, de fato, o exercício da “Política”? Existe uma consciência de que a história da América Latina aponta para outras direções, pois as populações não são mais tão tolerantes como outrora.

No Brasil há a concepção de que quem detém o direito político, detém também o poder e este pode ser utilizado para benefícios particulares em detrimento da coletividade. Todavia, o poder reside exclusivamente na comunidade política, no povo, exclusivamente; não está no Estado ou na instituição. A soberania também reside exclusivamente na comunidade política, no povo. A autoridade reside, exclusivamente, na comunidade política, nos cidadãos, nos partidários. O Estado, juntamente com os políticos, não é a sede do poder; o povo é a única sede do poder.

Diferentemente do que foi defendido por pensadores de que a soberania estava no monarca (Lock, século XVI); depois, mais tarde e até meados do século XX, que a soberania estava no Estado (Hobbes). Meros equívocos. Não são soberanos os governantes e os Estados, mas as comunidades políticas e estas não são compostas apenas por políticos profissionais, mas por todos os que buscam e lutam pela cidadania. Logo, o poder “está”, temporariamente, com os políticos profissionais, todavia, é e sempre será do povo.

Outro equívoco relacionado às questões do “poder” refere-se a como mudar o mundo sem que seja tomado o poder. Na nova abordagem e na concepção de poder que se constrói na América Latina, o poder não se toma e muitos erros foram cometidos no passado ao se pensar isso, porque o poder é uma faculdade e uma prerrogativa do povo, e somente do povo, que o tem ou não. E aí reside o problema; ou o povo exerce o poder ou se debilita. É, pois, fundamental que o povo internalize e assimile essa conduta de poder o qual se manifesta através de participação e posicionamento nas instâncias da sociedade nas quais o poder é exercido de forma delegada e temporária.

Fato é, que o conceito de Pátria e patriotismo estão – foram – desvirtuados, historicamente, pelos governantes e serão instaurados no momento em que o povo realmente se sentir respeitado por aqueles aos quais delegaram o exercício do poder “obediencial e não de mando”. Porém, esse respeito não acontecerá ao acaso, mas com construção que se dará através de condutas morais e éticas quando requeridas pela comunidade política, dos seus governantes. Por conseguinte, o povo reconhecendo-se respeitado, se dará o patriotismo integral sem que sejam necessárias leis que o obrigue a adorar uma bandeira e um hino que representam a Pátria. Isso porque o povo – a comunidade política e a sede do poder – sendo respeitado, torna possível e real a consolidação e, assim, nascerá e consumar-se-á o sentimento patriótico definitivamente.

A fim de que possa colaborar para o renascimento do patriotismo de fato na população, uma simples iniciativa deveria ser tomada por políticos; a iniciativa da humildade de estar com o povo, no mesmo nível, em ocasiões de solenidades à Pátria e todos juntos entoando o Hino Nacional enquanto, somente as bandeiras ficariam e seriam hasteadas em local de destaque. Em casos de desfiles, os políticos e autoridades que, atualmente, compõem o palanque poderiam também desfilar juntamente com todos os demais, afinal, são eles também funcionários do povo. Mais; que bom seria se todas as pessoas que assistissem a um desfile pudessem ver as evoluções e apresentações que, hoje, acontecem somente defronte ao palanque! Se assim fosse, o povo, principal pilar da Pátria, começaria a se sentir respeitado e posto em igualdade de condições e de valor na sociedade.
Sérgio Tezini Molina
Professor de Filosofia