terça-feira, 28 de setembro de 2010

Brigadistas do IBAMA: Seres Humanos, deuses não...


A constituição de dois esquadrões de brigadistas do Prevfogo do IBAMA, em Marcelândia, foi uma iniciativa brilhante do governo, porém gerou uma falsa expectativa na população, relacionada com as atribuições desses trabalhadores de proteção ao meio ambiente, como pode ser constatado no dia 11 de Agosto, ocasião em que imensas possibilidades para a propagação do fogo foram abertas em consequência de vários anos com baixíssima incidência de incêndios, fato que deixou pastagens e florestas muito inflamáveis pelo acumulo de matéria orgânica no solo; o mesmo acontecendo com os pátios das serrarias devido ao excessivo acúmulo de resíduos industriais.

Tanto na zona urbana, quanto na zona rural, tiveram início, ainda no mês de Julho, pequenos focos de incêndios visivelmente criminosos, pois pelo que se pode inferir, houve um excesso de confiança, em algumas pessoas, atribuída a existência da brigada para a realização de combate às chamas. No entanto, o que a população desconhecia – e ainda desconhece – é que o papel da brigada não é, a priori, o combate a incêndios em pastagens e em espaços ociosos no perímetro urbano, mas o de prevenção e combate a incêndios florestais. Além do mais os brigadistas dispõem, para o combate, de algumas bombas costais e de abafadores, itens não muito eficientes na erradicação de chamas de média e grande proporção carecendo, por isso, de carro pipa da municipalidade e de tratores de proprietários rurais para a contenção de fogo.

Em conversas com brigadistas, dentre os quais alguns antigos alunos, pude me certificar sobre fatos que suspeitava estivessem acontecendo em alguns casos de incêndios, pois minha permanência de 32 anos nesta região já me proporcionou vivências das mais sórdidas possíveis envolvendo destruição de pastagens e de florestas pelas chamas. Vários são os artifícios quando se é necessária a queima de uma pastagem degradada, uma área de floresta ou de um juquirão para posterior plantio de gramíneas, uma vez que o Código Ambiental restringe a prática da queimada. O proprietário ateia fogo em local fora de sua área de forma tal que, com a ajuda do vento dominante na seca (SE – NO), atingirá o espaço que se pretende queimar. Dessa forma, não há o risco de se ter que assumir prejuízos causados, eventualmente, em outras propriedades pela dificuldade ou até da impossibilidade de obtenção de provas.

Nestes dias em que o Mato Grosso, literalmente “pegou fogo”, constataram-se fatos em que até o endereço fora fornecido erroneamente para os brigadistas para que os mesmos demandassem mais tempo para chegarem ao local do evento e, conseguintemente, os autores do fogo tivessem mais tempo para que as chamas atingissem as proporções adequadas, assim como os locais almejados. Sendo assim, os funcionários do IBAMA foram solicitados apenas para formalizar e descriminalizar uma situação, além de não deixarem as chamas adentrarem em área de pastagem da fazenda.

Os incêndios, às margens da BR 080, que se encontram fora de controle, são consequência da falta de união entre os “proprietários” e pelo visível desinteresse de alguns deles em colaborar para a erradicação da destruição, pois o que estes realmente pretendem é a realização de plantio de sementes antes da incidência das chuvas – nas cinzas para aproveitarem o potencial de potássio e pela proteção de eventuais aves e outros animais que, porventura, procurem se alimentar das sementes. Ocorreu, conforme relatos de brigadistas, infelizmente, um caso em que o provável “proprietário” se negou em colocar o seu trator de esteiras para a abertura de carreadores, na floresta, para possibilitar o combate, no entanto, exigiu dos combatentes a proteção de sua pastagem. Não foi atendido, dada a sua incoerência, mesquinhez e conduta individualista e os trabalhadores direcionaram as suas atividades ao incêndio de forma genérica.

Enfatizo a forma egocêntrica e individualista com que as pessoas vêm os fatos – assim como reagem a eles –, pois têm o seu espaço como o único e pensam que poucos homens, e uma mulher, do Prevfogo, deveriam cuidar exclusivamente deste espaço. Sei, contudo, da rotina de um trabalhador contra o fogo e tenho ciência que a atividade exige muita cautela e planejamento e não podem se deter exclusivamente num determinado perímetro tendo em vista que as frentes de fogo são extensas, rápidas e violentas. Esses trabalhadores saem muito cedo das suas moradias e retornam às altas horas da noite, quando não ficam por vários dias sem retornarem para o seio das suas famílias, dormindo em condições sub humanas quando proprietários, ou grileiros, sequer se preocupam em proporcionar local humanamente decente para esses bravos esquecidos no caos da inanição marcelandiense.

Lastimo que esta sucessão de sinistros venha ocorrendo em um período que precede as eleições – pois é visível que a máquina eleitoreira tem se apropriado da desgraça alheia para que se reverta em votos – uma vez que se verifica, tão abertamente, a dedicação de “personalidades” locais no apoio a políticos moral e eticamente comprometidos. Lamento, ainda, pela constituição tardia das brigadas as quais não tiveram o tempo devido para se lançarem em campanha de sensibilização e orientação a fim de que o trabalho dos profissionais do IBAMA fosse mais bem compreendido e obtivesse maior colaboração e comprometimento das populações atingidas por incêndios. Logo, não bastam apenas pessoas dedicadas aos combates se não houver organização das comunidades rurais.