Na campanha presidencial, que acabamos de presenciar, verificou-se condutas lastimáveis do tucanato e de igrejas evangélicas, assim como da romana no sentido de produzir “verdades” com argumentos falaciosos no gozo da autoridade que exercem junto a simpatizantes e às suas messes, respectivamente. No primeiro caso, durante a campanha do primeiro turno, o tucanato lançou mão de estratégia visivelmente medíocre ao levantar todos os tipos de insinuações e calúnias contra a candidata petista e conclamando o eleitorado para fazer uso da internet para a conquista de votos. No segundo, as igrejas se manifestaram, utilizando-se de pressuposições que estariam contra os preceitos religiosos e éticos, os quais supostamente defendidos pela candidata.
Toda sorte de comentários foram levantados, alguns dos quais eu mesmo pude testemunhar, pois recebia cotidianamente, em meu correio eletrônico, mensagens com insinuações contra a candidata petista. Também ouvia dos meus estudantes outros tantos comentários, os quais quando indagados sobre a radicalidade e o rigor de tais fatos simplesmente argumentavam que tinham ouvido de alguém ou sabido pela internet ou, o que é muito pior, ouvido de algum pastor ou presbítero imprudente. Pude, assim, constatar que a força das religiões superam a própria Filosofia, pois estão acima dela, uma vez que não conseguem se desvincular dos dogmas que suprimem a razão e a reflexão, tendo em vista que trazem consigo – os dogmas – as verdades absolutas, prontas e acabadas.
Certamente, não contesto aqui os fatos se verídicos ou não – afinal tudo é objeto de reflexão e passível de ser posto ao crivo do método filosófico – mas a forma com que se “dialogou” nesta campanha eleitoral e à direção que fora dada aos comentários que culminaram, sempre, em conclusões superficiais, discriminadoras e, por conseguinte, conduzindo ao limiar da intolerância. Afirmo isto, porque algumas das hipóteses levantadas sobre a candidata petista é de que defenderia a prática do aborto, que seria “sapatão” e criminosa, logo, atribuindo à mesma o ateísmo e, generalizadamente, atribuindo aos ateus a ausência de ética, como se esta fosse um dom exclusivo dos religiosos e dos que seguem alguma ou outra religião.
Vivemos em um momento em que a regra é a relativização, a capacidade de entender o diferente e isso inclui a que entendamos as mais diversas formas de manifestações religiosas, de sexualidade, culturais e as diferentes etnias, contudo, não é possível se perceber no meio social a capacidade de relativização aos que não seguem nenhuma religião ou até dos que não têm nenhum deus. Os últimos são vistos com estranhamento, pois lhes é atribuído, equivocadamente, a ausência de ética, como se o ateísmo implicasse na ausência de razão. Mais, a discriminação de uma ou outra denominação religiosa implica em sanções penais, o que não ocorre em casos de desrespeito e discriminação aos ateus.
Durante a campanha eleitoral, tive a impressão de ter retrocedido no tempo e de ter retornado à Idade Média, período em que as pessoas que não se manifestassem religiosamente eram consideradas hereges e punidas severamente pela inquisição ou por outra forma de tribunal constituído pelo clero que era, explicitamente, o poder político e econômico. Mas, tive também a certeza que a Filosofia, nas escolas, está muito distante de produzir efeitos para a consolidação de uma nova ideologia que manifeste o pensamento e os anseios dos trabalhadores e dos excluídos, porque senti que as famílias, em sua grande maioria pouco cultas, quase sempre repassam aos filhos as verdades dogmáticas transmitidas pelas várias religiões – conforme pesquisa realizada – que, atualmente, de forma implícita, repassa a ideologia da classe dominante. (pesquisa realizada)
Assim como na ditadura militar, hoje a Igreja de Roma se silencia diante de fatos que ponham em risco ou fragilizem a carreira de certos políticos corruptos – que não são poucos – e que gerem obstáculos para a acumulação de capital de grandes empresários, mas se manifesta estrondosamente – através da CNBB – e sem a preocupação com a veracidade dos fatos contra a candidata petista. Teria essa conduta o objetivo de proteger a vida ou seria um pretexto inescrupuloso numa tentativa de proteger a elite e perenizando-a no poder, incluindo aos próprios bispos, principalmente os diocesanos que têm um padrão de vida nada humilde que pouco se difere da vida de um homem comum abastado? Afinal, o que é mais danoso à sociedade, a descriminalização do aborto, a corrupção política, ou a alienação produzida por meios religiosos? Qual das condutas aniquila mais vidas?
Não há, neste trabalho, a mínima pretensão de se concluir nada antecipadamente, mas de proporcionar momentos de reflexão que partam de dados concretos que sejam obtidos de fontes fieis e por meio de pesquisas que, como citei, já foi realizada junto a uma amostra no interior do próprio espaço escolar onde atuo, cujas considerações serão divulgadas neste mesmo espaço virtual com as devidas fundamentações históricas e filosóficas.