Pensar a sociedade brasileira como apenas movida pela sedução das imagens, nesta época que precede as eleições, seria o mesmo que aceitar tacitamente que o eleitor seja conduzido exclusivamente pela máxima Malufiana “ele rouba mas faz”. É inegável que a semiótica tem um forte papel nas campanhas eleitorais explorando o emocional e seduzindo muitos eleitores, através dos signos, fazendo este aspecto prevalecer sobre o campo da razão.
A retórica de pessoas envolvidas com a política profissional, candidatos ou não, dificilmente ultrapassa o campo ideológico no sentido restrito – o que faz uma verdade parcial parecer uma verdade geral – e tem, sempre, teor que almeja somente benefício individual, o que explica o fato de cabos eleitorais que defendem e difundem certos candidatos que, por ainda não terem sido julgados nas instâncias judiciais, permanecem inabalados pela Lei da Ficha Limpa, recentemente sancionada.
As mentiras se revestem com aspectos estéticos que no transcorrer do tempo até mesmo os que as criaram passam a crer que são as mais absolutas verdades, porque não foram capazes de fazerem as devidas conexões entre a Estética e a Ética. Não é possível, portanto, crer-se que possa existir um ente estético se não for provido de Ética, pois é esta a responsável pelos contornos mais belos, perfeitos e transparentes, tanto na arte como na política. Logo, o que é ético, certamente é estético, mas, nem sempre, o que é estético é ético.
Quando se aceita que os Homens – os eleitores – reagem apenas às imagens em detrimento das verdades e que a política partidária se resume somente nos princípios maquiavelianos, “Os fins justificam os meios”, aceita-se o caos moral que, inexorável e generalizadamente, recairá sobre as sociedades humanas num futuro muito próximo. Mais, despreza-se a própria Filosofia uma vez que não há mais a necessidade do descortinamento das aparências para que se atinjam as essências.
É oportuno alertar o leitor que Maquiavel não teria escrito sua célebre obra “O PRÍNCIPE” apenas para presentear o Magnífico Príncipe Lorenzo de Médici, tampouco a teria destinado a outros governantes, uma vez que o filósofo tinha consciência que aqueles não careciam de ensinamentos para conseguirem o poder, ou para mantê-lo. Portanto, a grande “sacada” de Maquiavel teria sido a de informar às pessoas comuns sobre como se comportavam os governantes na busca e na manutenção do poder, objetivando alertá-los e prepará-los para possíveis mudanças.
Inegavelmente, é premente que cada ser humano se volte para o seu interior e faça uma revolução na sua consciência; procure conhecer-se primeiramente a si para que as mudanças sejam desencadeadas sobre bases mais sólidas, todavia, seria oportuno negar relativamente uma sociedade cuja ética antropocêntrica – que coloca o homem no centro absoluto das questões, como foi no Renascimento–, assim como para Maquiavel, propondo uma ética do comportamento humano que privilegie os seres humanos, das distintas classes sociais, como partes integrantes da imensa, fabulosa e intrincada Teia da Vida. Ou, então, recair-se-ia ao velho, ultrapassado e ecologicamente inadequado pensamento de Protágoras de Abdera “O Homem é a medida de todas as coisas”. E tudo continuaria como está.
Sérgio Tezini Molina